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As desigualdades, motor da crise ecologica

Durée de lecture : 11 minutes

10 juillet 2012 / Hervé Kempf


Na história da humanidade e desde que bípedes percorrem o planeta, as três ou quatro gerações que entraram no terceiro milênio foram as primeiras a se depararem com as limitações da biosfera. Isto não se dá de forma harmoniosa e, sim, através de uma crise ecológica de grande importância.

Enfatizemos alguns de seus aspectos. O primeiro é a recente preocupação dos climatologistas : já faz alguns anos que passaram a raciocinar considerando a hipótese da possível irreversibilidade da mudança climática. Até agora imaginava-se que um aquecimento gradual ocorreria, mas que quando a humanidade fosse se dar conta da gravidade da situação, seria possível voltar atrás para retornar ao equilíbrio climático. Os climatologistas nos dizem que é possível que alcancemos um limiar, a tal ponto que o sistema climático desmoronará rumo a um desregulamento irreversível. Por exemplo, não seria mais possível evitar o ressecamento da floresta amazônica. Esta preocupação se nutre de uma séries de observações : as geleiras da Groenlândia derretem muito mais rápido do que as previsões dos modelizadores ; os oceanos podem absorver menos gás carbônico ; o aquecimento já está em andamento, acelerando o derretimento do permafrost, esta imensa camada de terra gelada situada na Sibéria e no Canadá, que ameaça, assim, liberar as imensas quantidades de gás carbônico e metano que contém.

A segunda observação é que a crise ecológica não se limita à mudança climática. Este é o fenômeno mais conhecido pelo grande público, que constitui apenas um elemento da crise global. Há outro, quase tão importante : a erosão da biodiversidade. Para ilustrar a extensão deste problema, nada melhor do que saber que os especialistas usam o termo "sexta crise de extinção" para se referirem ao desaparecimento acelerado de espécies que castiga nossa época. Na quinta crise, há cerca de sessenta e cinco milhões de anos, desapareceram os dinossauros.

Terceiro aspecto, menos sensível ou menos sintetizado do que a problemática da mudança climática : a contaminação química generalizada do nosso meio ambiente, com dois aspectos especialmente perturbadores. Por um lado, as cadeias alimentares estão contaminadas - em doses mínimas, claro - por poluentes químicos. Por outro lado, está cada vez mais claro que o maior ecossistema do planeta, o conjunto formado pelos oceanos, que sempre foi considerado infinito em sua capacidade de regeneração, está cada vez mais enfraquecido, quer pela poluição, quer pela degradação deste ou aquele ecossistema específico.

Esta forma de considerar a questão define a urgência política da nossa época. Porém, não é de hoje - e nem de ontem ! - que nossa sociedade foi avisada do perigo ; isto foi feito há várias décadas. De fato, Rachel Carson lançou o alerta em Le printemps silencieux em 1962 ; em seguida, a questão ecológica penetrou enfaticamente o debate público durante os anos 70 : desde então, conferências internacionais (Estocolmo em 1972, Rio de Janeiro em 1992), artigos científicos e lutas de ecologistas formaram uma somatória de conhecimentos que confirmam insistentemente a tendência geral.

Mas então, porque nossas sociedades não tendem realmente para as políticas que permitiriam evitar que a crise ecológica piore ? Esta é a pergunta crucial. Para responder, é preciso analisar as relações de poder em nossas sociedades. É preciso descobrir que elas estão organizadas de maneira a bloquear tais políticas necessárias. Como ? Há cerca de vinte anos, o capitalismo se caracteriza pelo retorno da pobreza nos países ricos. Contínua desde o final dos anos 40, a redução da taxa de pobreza se interrompeu nos países ocidentais ; em certos casos, chegou a se inverter.

Da mesma forma, a quantidade de pessoas em situação de precariedade (levemente acima do limiar de pobreza), aumenta também com regularidade. Por outra parte, no plano mundial, a quantidade de pessoas que se encontram em situação de pobreza absoluta (isto é, que dispõe de menos de 2 dólares por dia), é de 2 bilhões, ao passo que a FAO estima que mais de um bilhão de homens e mulheres não se alimentam com suficiência.

O aumento das desigualdades nos últimos vinte anos constitui um outro aspecto da crise social. Muitos estudos comprovam isto. Um deles, dirigido por dois economistas de Harvard e do Federal Reserve Board, é dos mais explícitos. Carola Frydman e Raven E. Saks (2007) compararam a relação entre o salário ganho pelos três maiores dirigentes das quinhentos maiores empresas americanas com o salário médio de seus empregados. Este indicador da evolução das desigualdades continua estável desde os anos 40, momento no qual começa a observação, até os anos 70 : os chefes das empresas consideradas ganhavam cerca de trinta-e-cinco vezes o salário médio de seus empregados. Em seguida, uma discrepância se produz a partir dos anos 80 e a relação cresce de forma bastante regular, chegando a alcançar uma proporção de cerca de cento e trinta, nos anos 2000.

Estes estudos significam que uma ruptura de maior importância ocorreu no funcionamento do capitalismo durante esses sessenta anos. Durante as décadas de 50, 60 e 70, o enriquecimento coletivo possibilitado pelo aumento contínuo da produtividade se distribuía entre capital e trabalho de forma bastante equilibrada, de tal forma que as relações de desigualdade se mantinham estáveis. A partir dos anos 80, produziu-se uma discrepância cada vez mais pronunciada entre os detentores do capital e a massa de cidadãos. A oligarquia passa a acumular rendas e patrimônio em um grau nunca visto em um século.

É essencial que nos dediquemos a considerar de que forma concreta os hiper-ricos fazem uso de seu dinheiro. Este uso não é mais velado, como no tempo da austera burguesia protestante descrita por Max Weber : bem pelo contrário, ele nutre um consumo ultrajante de iates, jatos privados, imensas residências, joias, relógios, viagens exóticas e um amontoado reluzente de dilapidação suntuária.

De que maneira isto é um motor da crise ecológica ? Para compreendê-lo,
devemos nos voltar para o grande economista Thorstein Veblen, cujo pensamento Raymond Aron classifica no mesmo nível que o de Carl von Clausewitz ou Alexis de Tocqueville. Muito esquecido hoje, ele não deixa de apresentar uma pertinência notável.

Vamos resumir sua interpretação ao extremo. O que dizia Veblen ? Que a tendência de competir é inerente à natureza humana. Cada um de nós tem uma propensão a se comparar com os outros, buscando manifestar, através de um ou outro traço externo, uma pequena superioridade, uma diferença simbólica em relação às pessoas com as quais vivemos. Veblen não pretendia reduzir a natureza humana a este aspecto que ele não julgava do ponto de vista moral, ele simplesmente o constatava. Baseando-se em numerosos depoimentos de etnógrafos de sua época, ele constatava também que esta forma de rivalidade simbólica pode ser observada em todas as sociedades.

Além do mais, continuava, todas as sociedades produzem com facilidade a riqueza necessária para atender a todas as suas necessidades por alimentos, moradia, educação das crianças, convívio, etc. Apesar disto, em geral elas produzem uma quantidade de riquezas bem superior ao necessário para satisfazer suas necessidades. Porque ? Porque trata-se de permitir que seus membros se distingam uns dos outros.

Em seguida, Veblen constatava que na maioria das vezes, existem várias classes no âmbito da sociedade. Cada uma é governada pelo princípio da rivalidade ostentadora. E em cada classe, os indivíduos adotam como modelo o comportamento vigente na camada social superior, que mostra o que se deve e é bacana fazer. A camada social imitada, por sua vez, se inspira da camada situada acima dela na escala da fortuna. Esta imitação se reproduz de baixo para cima, de tal forma que a classe situada no topo define o modelo cultural geral daquilo que é prestigioso, daquilo que se impõe aos demais.

O que ocorre em uma sociedade muito desigual ? Um imenso desperdício é gerado, porque a dilapidação material da oligarquia – em si, refém da competição ostentadora – serve de exemplo para toda a sociedade. Cada um no seu nível, no limite da suas rendas, tenta adquirir os bens e sinais mais valorizados. Mídia, propaganda, filmes, novelas e revistas de "famosos" são as ferramentas de difusão do modelo cultural dominante.

Então de que forma a oligarquia bloqueia as evoluções necessárias à prevenção da crise ecológica ? Diretamente, claro, mediante as ferramentas poderosas – políticas, econômicas e de mídia - de que dispõe e que utiliza para manter seus privilégios. Mas indiretamente também, e isto têm igual importância, com este modelo cultural de consumo que impregna toda a sociedade e define sua normalidade.

Agora, nós reatamos com a ecologia. Prevenir o aumento da crise ecológica, e até começar a restaurar o meio ambiente, é algo muito simples, a princípio : a humanidade precisa reduzir seu impacto sobre a biosfera. Conseguir isto também é muito simples, a princípio : isto significa reduzir o volume de extração/utilização de minerais, madeira, água, ouro, petróleo, etc., e reduzir o que descartamos em termos de gases de efeito estufa, lixo químico, material radioativo, embalagens, etc. Isto significa reduzir o consumo material global das nossas sociedades. Uma redução deste tipo constitui a alavanca essencial para mudar a situação ecológica.

Quem vai reduzir seu consumo material ? Estima-se que 20% a 30% da população mundial consome 70% a 80% dos recursos extraídos anualmente da biosfera. Assim, é destes 20% a 30 % que a mudança deve vir, ou seja, essencialmente as populações da América do Norte, da Europa e do Japão. É uma condição necessária para que os países do Sul, que enfrentam também a crise ecológica, possam lançar uma outra modalidade de desenvolvimento, que possa ser justa sem retomar o caminho destruidor trilhado pelos países ocidentais.

No âmbito das sociedades sobre-desenvolvidas, não podemos pedir aos pobres e aos assalariados modestos de reduzir o consumo material. Mas tampouco são apenas os hiper-ricos que devem implementar esta redução : pois mesmo se os oligarcas dispensarem suas limusines com motoristas, os relógios reluzentes ou as compras a bordo de um 4x4 em Saint Tropez, eles não serão bastante numerosos para que isto produza uma mudança suficiente no impacto ecológico coletivo. É a todas as classes médias ocidentais que esta redução do consumo material deverá ser proposta.

Aqui, vê-se que a questão da desigualdade é central : as classes médias não aceitarão nunca de seguir a via da diminuição de seu consumo material, enquanto perdurar a situação atual de desigualdade, enquanto a mudança necessária não for adotada de forma equitativa. Recriar um sentimento de solidariedade, essencial para atingir esta reorientação radical da nossa cultura, supõe evidentemente empreender uma redução radical das desigualdades – algo que, por outro lado, transformaria o modelo cultural existente.

A proposta de redução do consumo material pode parecer provocadora, haja visto o banho ideológico no qual estamos imersos. Mas hoje, no mundo ocidental, o aumento do consumo material global não está mais associado a um aumento do bem-estar coletivo – ele acarreta, bem pelo contrário, a degradação deste bem-estar. Além do mais, a civilização que optar pela redução do consumo material vislumbrará uma janela para outras políticas.

A transferência de riquezas permitida pela redução das desigualdades poderá estimular as atividades humanas socialmente úteis e de baixo impacto ecológico. Saúde, educação, transportes, energia, agricultura,... nestes e outros campos, as necessidades sociais são grandes e as possibilidades de ação são importantes. É preciso renovar a economia através da noção de utilidade humana, em substituição à obsessão da produção material, privilegiando o elo social ao invés da satisfação individual. Diante da crise ecológica, é preciso consumir menos para distribuir melhor.

Traduzido do francês por Leonardo Milani

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Referências

Frydman, C. & Saks, R.E., "Executive Compensation : A New View from a Long-Run Perspective, 1936-2005", Finance and Economics Discussion Series 2007-35, Washington, Board of Governors of the Federal Reserve System.

Aron, R., “Avez-vous lu Vleben ?”, in : Thorstein Veblen, Théorie de la classe de loisir, collection Tel, Gallimard, Paris, 1970.

Veblen, T., Théorie de la classe de loisir, collection Tel, Gallimard, Paris 1970.




Source : Reporterre

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